Artigo Publicado no Boletim da SAB Vol 18 no. 2, 1999



SUGESTÕES DE CRITÉRIOS PARA REDAÇÃO
E SELEÇÃO DE TRABALHOS
NA ÁREA DE
ENSINO DE ASTRONOMIA PARA A REUNIÃO ANUAL DA SAB


 

João B.G. Canalle1 (UERJ)

Luiz C. Jafelice2 (UFRN)

Rute H. Trevisan3  (UEL)

Jane C.G. Hetem4 (IAG-USP)

Carlos A.W. de Souza5 (INPE)

Mariângela O. Abans6 (LNA)

 

 

Resumo. A Comissão de Ensino da Sociedade Astronômica Brasileira (CESAB), constituída pelos autores deste trabalho (no período 8/96 a 8/98), após consulta a membros da SAB, sugere um conjunto de critérios para nortear aqueles que forem apresentar trabalhos relacionados com a área de ensino ou divulgação da Astronomia. Esperamos que estes critérios também sejam úteis aos membros das demais comissões de seleção de trabalhos, que anualmente têm a tarefa de selecionar os resumos para apresentação na reunião anual da Sociedade Astronômica Brasileira.


1. Introdução

 

            O típico resumo de trabalho encontrado nos boletins da SAB e que portanto foram aceitos para apresentação nas reuniões anuais, geralmente têm a seguinte estrutura:


a) a introdução ao problema ou objeto de estudo,
b) a metodologia de abordagem do mesmo e
c) alguns resultados são apresentados


ou, então, promete-se mostrar os resultados e conclusões no painel ou na comunicação oral. Alguns resumos não contêm o item “c”, isso porque ainda não foram obtidos resultados; a pesquisa ainda está em andamento ou no início, como no caso dos alunos do mestrado, que não possuem resultados novos para apresentar, mas que não é por isso que devem ser impedidos de participarem da reunião anual da SAB, pois ela é justamente para que ocorra de forma mais intensa a troca de idéias, discutam-se os trabalhos, conheça-se o que os colegas estão fazendo, etc. Em alguns resumos não se encontra nenhum dos itens a, b, c acima, isto porque são resumos confusos. No item “a)” o problema ou objeto de estudo é um objeto da astronomia, os quais são estudados segundo alguma metodologia de abordagem e chega-se a algum resultado o qual deve ser apresentado à comunidade.

            Nunca vimos uma publicação que orientasse os astrônomos para que fizessem desta forma os seus resumos. Provavelmente ao longo do tempo eles “convergiram” para o formato atual. Alguns resumos da seção de ensino apresentam esta mesma estrutura, outros, contudo, têm um formato diferente.

            A SBPC, à  qual são submetidos resumos de quase todas as áreas do conhecimento, distribui no seu folder de divulgação do evento, um modelo de resumo, que contém praticamente os mesmos itens dos resumos submetidos às reuniões da SAB, a saber: a) introdução, b) metodologia, c) resultados e e) conclusões. Todas as áreas do conhecimento devem se enquadrar neste formato para ter seu resumo aceito pela comissão selecionadora dos trabalhos submetidos para apresentação durante a SBPC.

            Neste artigo pretendemos discutir o que seja um trabalho de ensino factível de ser apresentado na reunião da SAB, qual o seu formato e quais são, portanto, os critérios de seleção que devem ser usados pelos organizadores da reunião anual para aceitar ou rejeitar os resumos propostos nesta área.

 

 

2. A importância da divulgação dos trabalhos na área de ensino de astronomia.

 

            Todo astrônomo, além de fazer suas pesquisas, está envolvido com questões de ensino e/ou de divulgação. Os astrônomos que trabalham em Institutos de Pesquisas desvinculados de uma Universidade, geralmente estão envolvidos com o ensino da pós-graduação em Astronomia. Aqueles que trabalham em Universidades, além da pós-graduação também atuam no ensino da graduação. E como cabe às  Universidades fazerem pesquisa, ensino e extensão, geralmente é exigido do astrônomo (vinculado à Universidade) que também se envolva com o ensino de extensão e/ou de divulgação, pois a população espera das Universidades que propiciem outras formas de transferência do conhecimento além dos cursos regulares de graduação e pós-graduação. Este envolvimento do astrônomo com o ensino é espontâneo, ou não muito espontâneo, pois dependendo da personalidade ou da habilidade com a oratória, alguns têm mais facilidades para se comunicarem do que outros. Com isso vemos que todo astrônomo, além de fazer pesquisa, está envolvido em ensino,  mas estranhamente, durante a reunião anual da SAB, somente há troca de informações na área da pesquisa técnica em astronomia, como se só fizéssemos  pesquisa o tempo todo, ou se fazemos outra coisa, consideramos esta muito menor em importância e não deve nem ser lembrada e muito menos discutida nas reuniões anuais da SAB. Basta ver que o número de resumos sobre ensino é extremamente pequeno, isto é, menor que 0,5% do total de resumos apresentados (Maciel, 1996).

            Certamente que as atividades de ensino nas quais os astrônomos estão envolvidos não são menos importantes do que suas pesquisas, ou vice-versa. Esta certeza está se estabelecendo pela vontade da própria SAB, a qual aprovou (ainda que com vários votos contrários) durante a XXI Assembléia Geral Ordinária a formação da Comissão de Ensino da SAB (CESAB). Além de várias outras atividades desenvolvidas por esta Comissão, ela vem sendo chamada a colaborar na seleção dos resumos de ensino encaminhados aos organizadores da reunião anual, e também consultada por diversos membros desta Sociedade sobre o que é um trabalho de ensino factível de ser apresentado na reunião anual. Estas consultas mostram que o astrônomo, apesar de experiente redator de resumos da área técnica de pesquisa em astronomia, não tem clareza do que seja um trabalho de ensino interessante para ser apresentado, discutido e divulgado na reunião da SAB, ou, quando tem essa clareza de idéias, tem receio de que o resumo do seu trabalho poderá ser recusado, pois falta tradição de discussão deste tipo de trabalho na SAB.

            O astrônomo,  como pesquisador e criativo que deve ser, é muito provável que também neste campo (do ensino) ele acabe fazendo descobertas, ou aprimoramento de métodos de ensino, ou desenvolvimento de novos materiais didáticos, ou elaborando mais simples demonstrações algébricas de certas equações, ou descobrindo concepções espontâneas errôneas sobre fenômenos astronômicos, ou mais recentemente, desenvolvendo o ensino de astronomia através dos meios eletrônicos, como por exemplo, o desenvolvimento de softwares para o ensino, ou a implantação de “home pages” voltadas para o ensino ou divulgação da astronomia, novas técnicas ou metodologias de sessões de planetário ou de exposições de divulgação científica, etc.

            Estes trabalhos também demandam tempo do pesquisador em astronomia e só podem ser feitos por alguém com conhecimento em astronomia, de modo que se o astrônomo não o fizer, ninguém mais o fará, pelo menos não tão bem quanto o astrônomo pode fazer, pois este possui a melhor preparação científica para isso. E sem dúvida nenhuma, estes trabalhos também são importantes para a transferência do conhecimento daqueles que o possuem para aqueles que o querem possuir. Assim sendo, nada mais justo do que apresentar os resultados inovadores deste trabalho durante a reunião da SAB e publicando-os nos meios mais apropriados para atingir a população para os quais eles são desenvolvidos. A importância de se divulgar o resultados dos trabalhos nesta área é exatamente a mesma de se divulgar os trabalhos das pesquisas sobre os objetos astronômicos, ou seja, uma vez feito e divulgado, outros poderão usá-los ou aperfeiçoá-los.

 

3. Critérios sugeridos para aceitação de resumos na área de ensino de astronomia.

 

            Sugerimos que os itens abaixo possam orientar aqueles que desenvolveram trabalhos que consideram interessantes de serem divulgados entre os astrônomos da SAB, assim como possam orientar aqueles que estão na missão de selecionar os trabalhos submetidos para apresentação na reunião anual da SAB.

  1. O  trabalho deve apresentar elementos inovadores que contribuirão para o ensino ou divulgação da astronomia no país em qualquer um dos níveis de escolaridade. Como exemplo podemos citar: aprimoramento ou testes de novos métodos de ensino, desenvolvimento de novos materiais didáticos, elaboração  mais simples de demonstrações algébricas de certas equações, descoberta de concepções espontâneas errôneas sobre fenômenos astronômicos, desenvolvimento de softwares para o ensino de astronomia, etc, etc.

  2. A  redação do resumo deve ser feita num formato o mais próximo possível daquele já amplamente aceito, conforme descrito acima. Este é o ponto inicial para se ter clareza do problema estudado, da metodologia usada para abordá-lo e dos resultados obtidos. Uma redação num estilo muito diferente deste pode impedir os membros da comissão de seleção de trabalhos da SAB de compreenderem os objetivos do trabalho e mesmo assim, se aceito, pode trazer dificuldade de entendimento para qualquer outra pessoa que lê-lo.

  3. Os itens anteriores não contemplarão todas possibilidades, obviamente. Caberá à comissão selecionadora dos resumos usar o bom senso para analisar aqueles que não se enquadrarem nos itens anteriores. Por exemplo, no caso de discussões sobre currículos de astronomia ou descrições de atividades, as mais variadas, sobre ensino e ou divulgação de astronomia, caberá à comissão selecionadora avaliar se tal trabalho contém elementos de interesse da comunidade.

 


 

4. Conclusões

 

            Pode-se observar nos poucos resumos de ensino já publicados nos últimos boletins da SAB, que alguns autores usam o formato tradicional de apresentação do resumo, os quais são objetivos e provavelmente não deixam dúvida aos membros da comissão de seleção que o painel ou comunicação advindo daquele resumo, conterá informações de interesse da comunidade ou pelo menos  àqueles mais intensamente envolvidos com esta área. Por outro lado, existem resumos que, apesar de longos, deixam de ser objetivos.

            Aos autores de trabalhos eventualmente recusados deve-se explicar  porquê ele foi recusado e se a seleção for feita com antecedência suficiente, pode-se devolver o resumo ao(s) autor(es) solicitando que o reapresentem num formato mas objetivo, quando este for o caso.

            Acreditamos que estas sugestões possam contribuir para que os trabalhos apresentados na área de ensino tenham uma maior uniformidade e clareza de apresentação.

           

 

5. Referências

 

Maciel, W.J., Boletim da Sociedade Astronômica Brasileira, vol. 16, n o 2, 11 - 31, 1996



1 - canalle@uerj.br
2 - jafelice@dfte.ufrn.br
3 - trevisan@npd.uel.br
4 - jane@astro.iag.usp.br
5 - alex@das.inpe.br
6 - mabans@lna.br