A Terra e a Lua

1 - Nos livros didáticos, via de regra, só apresentam 2 dos 14 movimentos da Terra. Gostaria de contar com o consórcio dos estudiosos do tema para poder esclarecer a minha filha

Antes de mais nada, o planeta Terra só possui um movimento, o seu próprio. Este movimento pode ser, todavia, subdividido em suas diversas componentes. Ademais, não é possível falar do movimento da Terra como um movimento absoluto. É necessário antes fixar um referencial, isto é, um ponto fixo com relação ao qual o movimento em questão possa ser descrito. Os movimentos normalmente considerados, são na verdade as componentes do movimento terrestre tomando o Sol como referencial, ou seja:

1) Translação: componente devida ao fato da Terra pertencer ao sistema planetário que órbita a estrela Sol. O período desta componente é de aproximadamente 365,2422 dias, durante os quais a Terra descreve uma elipse (quase uma circunferência) em torno do Sol.

2) Rotação (do latim rotatio, giro sobre si mesmo): componente do movimento da Terra que designa a rotação sobre o seu próprio eixo. A rotação da Terra dura aproximadamente 24 horas (23h 56m 04s).

3) Precessão: a Terra não é um corpo rigorosamente esférico e regular e também não é absolutamente sólido. Sendo assim, a direção do seu eixo de rotação e o período de sua revolução não são constantes. O resultado disso é que o eixo da Terra efetua no espaço um movimento bastante complexo: o eixo descreve, vagarosamente, um cone em torno do eixo perpendicular ao seu plano órbital. Este movimento do eixo é chamado precessão. A variação da direção do eixo da Terra é de aproximadamente 50 segundos de arco por ano ou 360 graus em cerca de 26000 anos. O fenômeno não se realiza uniformemente, mas sofre oscilações periódicas (nutação).

4) Nutação: o eixo da Terra sofre diversas oscilações pequenas em torno da sua posição media; essa oscilação ou ondulação periódica é chamada de nutação do eixo terrestre. As oscilações devem-se ao fato das forças responsáveis pela precessão, aplicadas pelo Sol e pela Lua, mudarem continuamente de valor e direção: são nulas quando o Sol e a Lua estão no plano do equador da Terra e atingem o valor máximo quando estes astros estão mais afastados do equador. A nutação tem um período de 18,6 anos.

5) Movimento dos pólos: a Terra não é um corpo rígido e está sujeita a deformações elásticas: o corpo da Terra sofre um certo deslocamento em relação ao seu eixo de rotação. Este deslocamento não exerce nenhuma influência sobre o eixo de rotação da Terra, cuja direção se mantêm fixa no espaço, e por isso, existem vários pontos na superfície terrestre que coincidem, em instantes diferentes, com os pólos de rotação. Quer dizer que os pólos "vagueiam" pela superfície terrestre. Como conseqüência disso, as latitudes dos lugares sobre a superfície terrestre variam, desviando de até 0,3 segundos de arco do seu valor médio.
Se fixarmos, por outro lado, o centro de nossa Galáxia como referencial, será possível identificarmos mais uma componente do movimento terrestre:

6) A componente devida ao fato do Sistema Solar órbitar o núcleo de nossa Galáxia: o Sol arrasta seus planetas, cometas e asteróides em seu movimento ao redor do núcleo galático num movimento de duração estimada em 200 milhões de anos.

A nossa Galáxia, porém, não constitui todo o Universo conhecido. De início, ela pertence a um grupo de galáxias denominado como "Grupo Local". A nossa Galáxia se move com relação ao centro de gravidade deste grupo. Mas este grupo, como um todo, também se move na direção de uma grande concentração de massa, chamada genericamente de "grande atrator". A Terra, pertencente ao Sistema Solar, que por sua vez pertence a nossa Galáxia (a Via Láctea) e que, por sua vez peretence ao Grupo Local, possui também, como componentes de seu movimento no Universo os movimentos da Via Láctea em torno do centro do Grupo Local e o movimento do Grupo Local em torno do grande atrator.



2 - Ninguém nunca achou estranho que a velocidade de rotação da Lua em torno da Terra seja exatamente igual a sua velocidade de rotação em torno de si mesma? Será que isto não passa de uma coincidência astronômica ou será que tal fato pode ser uma pista ainda não explorada para algo? Se, por outro lado, existe uma explicação óbvia que desconheço para o fato, poderiam vocês me elucidar?

Não é uma coincidência o fato do período rotacional da Lua ser precisamente igual ao seu período órbital. Essa sincronização de rotação é uma situação altamente estável pois ela minimiza a perda de energia do sistema Terra-Lua. Quando essa sincronização de rotação é alcançada, ela se mantem e, se o período órbital mudar lentamente, o período rotacional se ajustará a essa mudança. A maior parte dos satélites do Sistema Solar estão em rotação sincrônica com os seus primários (os planetas em torno dos quais órbitam).



3 -
A força gravitacional (que inclui obviamente a massa e o quadrado da distância) do Sol sobre a Terra e cerca de 1.000.000 de vezes maior que a força gravitacional da Lua sobre a Terra. Neste caso porque a Lua influi tanto nas marés? Não seria a influência do Sol 1.000.000 de vezes maior e a da Lua, portanto, desprezível?

Devido ao fato de que a Terra não é um corpo pontual, a força de atração gravitacional varia de um lugar da superfície terrestre para outro. A ação dessa força na superfície terrestre é conhecida como marés, ou seja, duas subidas e duas descidas alternadas do nível das águas do mar num período de 24 h e 50 min (dia Lunar). Para entendermos melhor este efeito considere que a Terra está coberta uniformemente pelas águas do oceano (figura abaixo). Vamos considerar que a Terra é um corpo extenso e não um ponto onde toda a massa se concentra. Nos pontos A e B da figura a aceleração devido a atração gravitacional da Lua é obtida da seguinte maneira:


aceleração no ponto T: wt=Gm/r2, onde m é a massa da Lua , r é a distância centro da Terra/centro da Lua e G é a constante gravitacional

aceleração no ponto A: wa=Gm/(r-R)2, onde R é o raio da Terra

aceleração no ponto B: wb=Gm/(r+R)2.

A aceleração relativa (isto é , em relação ao centro da Terra) no ponto A é igual a diferença wa=wt:

wa-wt = Gm[(1/(r-R)2) - 1/r2]

wa-wt = Gm[(2rR-R2)/(r-R) 2 ´ r2]

Uma vez que o raio da Terra, em comparação a distância r, é muito pequeno, podemos desprezar R2 no numerador, e no numerador substituir (r-R) por r. Então teremos que a aceleração relativa provocada pela Lua (wL) é dada por:

wL = wa-wt = Gm[2rR/r4] = Gm[2R/r3]. (1)

Esta diferença de acelerações está dirigida do centro da Terra para a Lua, uma vez que wa>wt. A diferença de acelerações wb-wt tem um valor aproximadamente igual a wa-wt e tem o mesmo sentido, uma vez que wb<wt. Sendo assim, nos pontos A e B a ação diminui o efeito da força de gravidade na superfície terrestre.

A equação (1) é aproximada, mas nos dá uma idéia de como ocorrem as marés. Nos pontos A e B esta aceleração produz um efeito de diminuir a atração gravitacional da Terra. Nos pontos C e D a ação da Lua aumenta a força gravitacional terrestre. Consequentemente, o invólucro de água da terra sujeito a ação gravitacional lunar toma a forma de um elipsóide alongado na direção da Lua, produzindo uma subida do nível das águas nos pontos A e B e uma descida nos pontos C e D.

O invólucro da água da Terra também está sujeito às marés causadas pelo Sol, mas a intensidade deste efeito é aproximadamente 2.2 vezes menor que o efeito da Lua. Isso pode ser verificado aplicando-se a equação 1 para o Sol para determinarmos a aceleração relativa provocada por ele (wS):

wS = G M [2R/a3]        (2)

onde M é a massa do Sol e a é a distância Terra/Sol. Dividindo a equação 1 pela equação 2 e substituindo as distâncias e massas por seus valores numéricos (r = 1.49 ´ 108 km, a = 3.84 ´ 105 km, M = 1.99 ´ 1030 kg e m = 7.38 ´ 1022 kg) teremos

wL / wS = [m ´ a3 ] / [M ´ r3] ~ 2.2



4 - Os terremotos acontecidos em 1997, notadamente na Itália, são única e exclusivamente causados pelo movimento das placas tectônicas ou podem também terem sido provocados pela atração/repulsão gravitacional de um corpo celeste próximo à Terra, como a Lua ou o Sol por exemplo?

Os terremotos na Terra são causados principalmente pelo movimento das placas tectônicas. A influência de outros planetas, mesmo Júpiter ou Saturno, é insignificante. A Lua, porém, pode deflagar um terremoto que esteja prestes a acontecer. Caso existam placas em uma situação de equilíbrio muito instável, os efeitos de maré causados pela Lua podem acelerar o movimento das placas e causar o terremoto. Os efeitos de maré, sozinhos, não podem causar terremotos. Por outro lado, a Terra parece produzir um efeito de maré muito maior sobre a Lua e pode ter uma contribuição maior nos terremotos da Lua (moonquakes): já foi observado que o número de abalos na Lua atinge um máximo justamente quando a Lua se encontra mais próxima da Terra.



5 - É verdade que a causa para a mudança climática e outras coisas que vêm acontecendo na Terra é a mudança do eixo terrestre para zero grau de inclinação? Como os astronônomos fazem para determinar tal eixo?

Felizmente, o eixo da Terra não está em movimento de regressão a zero de sua inclinação, muito menos já o realizou. Isto não significa que a inclinação do eixo terrestre seja inteiramente estável, mas sua variação é lenta e diminuta. Em um milhão de anos, esta variação, positiva ou negativa, é de apenas 1,3 graus em torno do valor médio de 23,3 graus. Este fator é, entretanto, suficiente para que ocorram variações de até 20% da insolação recebida no verão a 65 graus de latitude. É em virtude desta variação que a Terra por vezes entra em períodos glaciares.

O que permite que a variação do eixo terrestre se dê numa faixa tão diminuta é a presença de seu satélite, a Lua. Se a Lua não existisse, a inclinação do eixo terrestre poderia variar, em alguns poucos milhões de anos, de zero a 85 graus. As variações climáticas seriam imensas e, possivelmente, a vida não teria se desenvolvido tal qual a conhecemos pois tanto quanto pudemos reconstruir de sua história, a vida na forma refinada como aparece na Terra, necessita das condições estáveis que o sistema Terra-Lua oferece.

Há diversas evidências observacionais da inclinação do eixo terrestre. A mais imediata é o fato da duração do dia Solar variar continuamente ao longo do ano. Outra evidência são as estações do ano, que são devidas às diferenças de insolação ao longo do ano sobre a mesma região considerada do globo terrestre. Uma evidência mais sutil é a da variação da posição do Sol ao longo do ano se o observarmos a cada dia numa dada hora.



6 - Se o eixo da Terra não fosse inclinado com seria nosso planeta? Haveria alterações climáticas? A duração dos dias seria diferente? O Seu movimento de translação e rotação seriam afetados? É conhecido em que época ele se inclinou?

O eixo de rotação terrestre tem uma inclinação de aproximadamente 23,3 graus em relação à direção perpendicular ao seu plano órbital. O principal efeito da inclinação do eixo terrestre é a alternância das estações do ano. Isto ocorre porque, sendo o eixo inclinado, os dois hemisférios são iluminados de forma desigual pelo Sol. Conforme a Terra segue em sua órbita, a área que é efetivamente iluminada pelo Sol varia, de modo que há dois momentos quando um dos hemisfério tem um máximo de iluminação (verão) enquanto o outro hemisfério recebe uma iluminação mínima (inverno) e dois momentos quando os dois hemisférios são igualmente iluminados (primavera/outono).

Concomitantemente, a duração do dia (intervalo de tempo durante o qual o Sol esta acima do horizonte) varia, sendo máxima no verão e mínima no inverno. Portanto, caso o eixo da Terra não fosse inclinado, ou seja, se ele fosse perpendicular ao plano de rotação da Terra em torno do Sol, não haveria estações climáticas, e a duração do dia seria a mesma durante todo o ano. O clima da Terra seria bem mais monótono. Não haveria nenhuma conseqüência para o movimento de translação terrestre. Para a rotação, no entanto, a situação não é tão clara. Desde sua formação, o período de rotação terrestre tem aumentado devido a ação das forças de maré da Lua e, em menor escala, do Sol. Se, desde o início o eixo de rotação da Terra fosse perpendicular, provavelmente hoje seu período de rotação seria ligeiramente maior do que 24 horas, embora a presença da Lua torne difícil afirmar categoricamente.

Quanto à origem da inclinação, ela provavelmente está ligada a uma ou varias colisões com outros corpos que nosso planeta deve ter sofrido em estágios iniciais de sua formação.


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