Para início de conversa...

1 - Para que serve a astronomia? Gostaria de saber para que serve a investigação de um objeto estelar localizado à cerca de 1000 anos luz do nosso planeta. Por favor responda seguindo o raciocínio abaixo:

- Nunca será possível confirmar as informações.
- O cérebro de um astrônomo não seria melhor utilizado em pesquisas que possam ser postas em prática dentro dos próximos dez anos (não anos luz).
- Qual é o custo-benefício do uso de horas homens, computadores, etc. na pesquisa do referido objeto?

A sua questão, na verdade, não se refere somente a Astronomia, mas, ao contrário, à pesquisa básica em geral. A Astronomia talvez seja o caso mais visível de pesquisa básica exatamente pela intangibilidade de muito de seus objetos de estudo. Comecemos então pela pergunta mais abrangente de "para que serve pesquisa básica?":a resposta é, evidentemente, para nada e para tudo, dependendo do que se queira da pesquisa que se empreende. Sem pesquisa básica não há fundamento sobre o qual qualquer pesquisa aplicada possa ser levada a cabo no sentido de superação de um dado paradigma tecnológico no qual ela esteja sendo produzida. Uma civilização sem pesquisa básica estaria condenada a, no máximo, desenvolver artefatos dentro de um mesmo paradigma científico-tecnológico, aquele que ela já possui, sem jamais superá-lo. Isto explica a grande continuidade cultural e tecnológica de civilizações extraordinárias como a egípcia, a hindu ou a chinesa: refinaram ao máximo seu próprio paradigma científico-tecnológico sem jamais superá-lo e, por isso, terminaram submetidas por povos geralmente menos refinados. Ademais, a questão fundamental em ciência e tecnologia é a de que não se sabe de onde vem as respostas. Não se sabe, à priori, de qual ramo de investigação sairá qual conhecimento que poderá vir a ser empregado em tal área. Este é o motivo pelo qual todos os campos passíveis de investigação devem ser encarados com a mesma seriedade e relevância. A compreensão do mecanismo de produção da energia solar, por exemplo, veio a ser esclarecedora sobre a possibilidade de obtenção de energia nuclear. Aliás, a identificação acidental de um elemento existente com relativa abundância no Sol, mas desconhecido à época na superfície terrestre, viabilizou não só nosso aprofundar sobre a estrutura da matéria, mas - resultado prático - pôde-se obter e utilizar este novo elemento, o Hélio.

O questionamento quanto à utilidade da pesquisa básica é um dos maiores filões do anedotário científico. Conta-se, por exemplo, que quando Faraday apresentou uma demonstração prática da produção de corrente elétrica pela variação do campo magnético foi fortemente questionado quanto à utilidade de sua descoberta. Suas palavras teriam sido:

- Para que serve isto? Não sei. Isto é um bebê. Para que serve um bebê?

Ou seja, conhecimento em estado bruto não tem imediata aplicabilidade. Mas é fundamental obtê-lo, cultivá-lo e utilizar a inventividade humana para saber usufruí-lo.

No caso específico da Astronomia, podemos dizer que ela sempre esteve imbricada, no Ocidente, a uma teoria física. Foram as descobertas astronômicas de Galileu - ou melhor, a confirmação observacional do fato de habitarmos um sistema heliocêntrico e não geocêntrico - que puseram por terra a factibilidade da Física Aristotélica e levaram ao lento gestar de uma teoria dos fenômenos físicos fundada na idéia de inércia, que pudesse explicar corpos soltos no espaço. Em suma, sem Astronomia - este ato inútil de varar noites e noites perscrutando o céu, identificando novos corpos e anotando posições dos astros - não haveria as leis de Newton, umbilicalmente ligadas a sua teoria da gravitação, e ainda estaríamos tecnologicamente estagnados na era das caravelas e não dos satélites artificiais (para os quais, em geral, gravitação newtoniana ainda é a regra).

Mas já que estamos falando de aplicabilidade, cumpre mencionar que várias tecnologias de ponta estão associadas à física de altas energias. Ora, os aceleradores de partículas atuais já vão se tornando cada vez menos adequados à natureza das investigações que se quer empreender. Muitas vezes, somente em algumas regiões do Universo as quantidades de energia envolvidas existem (bem longe em tempo e espaço da Terra, felizmente).

Agora, especificamente com relação aos pontos levantados:

"Nunca será possível confirmar as informações."

Esta afirmação não faz sentido: em muitos casos, (por exemplo, composição, química de superfícies estelares), as distâncias envolvidas não implicam em dificuldade maior do que a exiguidade da informação recebida, já que esta é obtida pela análise da luz captada, exatamente como pesquisas espectroscópicas são realizadas com objetos aqui na Terra.

"O cérebro de um astrônomo não seria melhor utilizado em pesquisas que possam ser postas em prática dentro dos próximos dez anos (não anos luz)"?

Como a natureza da aplicabilidade de descobertas advindas de pesquisa básica é algo inteiramente indeterminado, não sabemos se uma descoberta astronômica hoje poderá resultar em novas tecnologias imediatamente, a médio prazo ou nunca. Além do risco ser algo intrínseco ao trabalho com o indeterminado, a aplicabilidade depende também da inventividade de quem queira - ou saiba - aplicar um dado conhecimento obtido.

"O custo benefício do uso de homens-hora, computadores, etc. na pesquisa do referido objeto qual é?"

Objetos como o referido - de natureza estelar, em nossa galáxia - são alvo de estudos de diversas áreas astronômicas: astrofísica estelar, meio intergaláctico, evolução química da galáxia, dinâmica galáctica, etc. Não dispomos no momento do volume de recursos mundialmente investido hoje nestas áreas. Menos ainda saberíamos como quantificar benefícios para pensar num valor absoluto para a relação custo/benefício envolvida.

Por fim, gostaríamos de acrescentar que, em última instância, o próprio critério de mera aplicabilidade, o medíocre critério de utilidade, não pode ser considerado como único a legitimar inversão de recursos. Esta postura não dignifica a aventura espiritual da espécie humana, com suas grandezas e misérias, tal qual ela foi empreendida até aqui. Perguntas equivalentes seriam para que serve a "Nona Sinfonia" de Beethoven - não teria sido melhor que ele tivesse sido mais um técnico de charrete (teria sido mais útil à sua sociedade...)? Para que servem a "A Ilíada" de Homero, "Os Luzíadas" de Camões, "Hamlet" de Shakespeare, em suma, A Arte, a Filosofia, o cultivo do Pensamento e de nossa sensibilidade? Para nada, e não seríamos homens sem estas aventuras espirituais que nos fazem partilhar a aventura de um Universo que não é, em momento algum, o mesmo. A Astronomia nos permite conhecermos um pouco mais este Universo que nos cerca. O que vamos fazer com isto depende de nós.

Já dizia Pessoa: "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"


2 - Gostaria de saber a sua opinião sobre a Astrologia. Já vi muitas pessoas serem contra (em sua maioria, astrônomos), e gostaria de saber alguma razão, científica, clara e concreta para muitos astrônomos não acreditarem em Astrologia.

A Astrologia, antes de mais nada, não é uma ciência. Numa definição rápida, segundo o dicionário Aurélio, ciência é "um conjunto organizado de conhecimento relativo a um certo objeto, especialmente os obtidos mediante a observação, a experiência dos fatos e um método próprio". Por exemplo, o objeto de estudo da astronomia são os astros, como entidades físicas; seu propósito é conhecer-lhes a natureza, seu passado e seus possíveis futuros; para tal, ela se vale de observações e de modelos elaborados a partir de conhecimentos físicos. À medida que os modelos são comparados com as observações, uma base verificável de conhecimento é construída. Por outro lado, o objeto de estudo da astrologia é a pretensa influência de alguns astros sobre a vida humana. Os métodos para atingir tal conhecimento inexistem e, quanto mais os astrólogos discutem, mais eles se afastam da possibilidade de construir um corpo de conhecimento consistente interna e externamente. De um ponto de vista cientifíco, a astrologia é uma reminiscência não científica do passado histórico da ciência astronômica.

A astrologia remonta à época em que civilizações socialmente estáveis e estruturadas, que gozaram de uma continuidade temporal apreciável, puderam constatar que os ciclos naturais, dos dias e das noites até às estações do ano, estavam associados a regularidades celestes, isto é a repetição cíclica de fenômenos naturais associava-se exatamente à repetição cíclica de configurações celestes. Dentro de uma concepção mítica, entretanto, há uma unidade e uma continuidade mental entre todas as atividades relacionadas à vida. Assim, uma articulação entre ciclos naturais terrestres e configurações celestes estabelecia a possibilidade de se pensar numa conexão entre existência individual e configurações celestes. O conhecimento sobre os ciclos naturais e sobre o destino humano individual e coletivo pertenciam ao mesmo trabalho de investigação.

Entretanto, dentro da trajetória intelectual da sociedade ocidental, ocorreram sucessivas revoluções, a primeira das quais pode ser identificada nas elabororações pós-mitológicas dos gregos do V século. Ali foram empreendidas as primeiras especulações em torno da idéia de que os fenômenos naturais ocorrem em virtude de causas naturais. A geração seguinte de pensadores gregos foi aquela que deu a primeira sistematização dessas idéias. Aristóteles com sua física, Eudoxo com seu modelo cosmológico geocêntrico mas que procurava dar uma explicação para o movimento dos planetas e, por último, Euclides com a sua sistematização do conhecimento geométrico grego de então.

Uma segunda revolução intelectual significativa pode ser considerada a época do Renascimento, ou mais especificamente, as descobertas científicas que, a partir de Galileu, vão levar à física inercial de Newton e ao modelo cosmológico heliocêntrico. A partir de então, tinha-se uma explicação científica, no sentido que discutimos acima, para a articulação entre os ciclos naturais da Terra e as configurações celestes a eles associadas. Assim, os dois pilares mentais que permitiram o nascimento da astrologia não mais tem fundamento no Universo intelectual da civilização ocidental. Não vivemos mais numa dimensão mítica, ou seja, não mais aceitamos causas não naturais para eventos naturais e as grandes regularidades cíclicas associadas a configurações celestes estão inteiramente explicadas. Por outro lado, nenhuma base racional foi efetivamente associada à articulação entre configurações celestes e destino individual.

Assim, enquanto a Astronomia é o conhecimento articulado do projeto intelectual da civilização ocidental sobre o Universo, sua natureza, seus corpos, seu devir, a Astrologia não possui local neste projeto intelectual, é apenas uma peça de museu desta trajetória. Diversos autores (não só astrônomos) têm discutido a Astrologia. Abaixo listamos alguns dos principais argumentos cientifícos levantados na literatura.

De Artigo de Andrew Franknoi, publicado na Revista Sky and Telescope 1980 e traduzido no Boletim da Sociedade Astronômica Brasileira (1990), volume 12, n° 2, retiramos perguntas que evidenciam alguns pontos mais críticos da não sustentabilidade da Astrologia frente a critérios cientifícos:

-  Qual é a probabilidade de que 1/12 da população da Terra esteja tendo o mesmo tipo de dia?

-  Por que o momento do nascimento, e não o da concepção, é crucial para a astrologia? Ou o ventre materno manteria as influências astrológicas afastadas até o nascimento?

-  Nós não deveríamos condenar a astrologia como uma forma de discriminação? Será que recusar-se a sair com uma Leonina ou não contratar um Virginiano não é tão preconceituoso quanto não sair com uma católica ou não contratar um negro?

-  Por que diferentes escolas da astrologia discordam tão fortemente entre si? Leia 10 colunas astrológicas diferentes, ou examine uma previsão feita por 10 astrólogos diferentes, e provavelmente você terá 10 interpretações diferentes.

-  Se a influência astrológica é veiculada por alguma força conhecida, por que os planetas dominam? Se a influência astrológica é veiculada por alguma força desconhecida, por que esta é independente da distância? Se as influências astrológicas NÃO dependem da distância, por que não existe astrologia de estrelas, galáxias, e quasares? Será que um cliente cujo horóscopo omite os efeitos de Rigel, do pulsar do Caranguejo e de M31 (Andrômeda) realmente recebe uma interpretação completa?

Outro artigo, de Ivan Kelly publicado na revista Mercury de Nov-Dez/1980 destaca os seguintes pontos:

-  A linguagem da Astrologia é sufientemente ampla e vaga para que qualquer pessoa nela se reconheça. Algumas experiências neste sentido foram realizadas: o envio do mesmo horóscopo fictício para mais de uma centena de pessoas diferentes e o envio de horóscopos não correspondentes à data de nascimento para número de igual ordem de pessoas receberam um índice elevado de aceitação por parte dos consulentes, similar ao do horóscopo "correto".

-  O número de signos na linha do Zodíaco não é 12, mas 14, pois as constelações da Baleia e Ofiúco também são cortadas pela Eclítica.

-  A Astrologia não leva em conta a precessão dos equinócios, desta forma os signos de hoje não mais coincidem com os signos de 2.000 anos atrás: quem nasceu sob o signo de Capricórnio, não possuía o Sol sobre este signo na hora do seu nascimento.

-  Pelo menos metade das populações que moram nas regiões de latitude superiores aos Círculos Polares Ártico ou Ántartico não possui horóscopo, pois nem o Sol nem os planetas são visíveis durante metade do ano.

-  As casas Zodiacais possuem a mesma duração mas suas contelações associadas não possuem a mesma área no céu.

Assim não é possível aceitar sequer a Astrologia como a possuir coerência com os seus próprios fundamentos, quanto mais conferir-lhe o estatuto de ciência.


3 - Qual a razão de as pessoas sempre confundirem Astronomia com astrologia?

Acreditamos que a confusão tem basicamente dois motivos: um histórico e outro associado à política atual de divulgação de informações.

O histórico está associado à origem comum da ciência astronômica e da crença astrológica. Um bom esclarecimento sobre a astrologia e sua origem atrelada à Astronomia podem ser encontradas na resposta 2 (Astronomia e astrologia) desta mesma seção (Para início de conversa...)de onde vale ressaltar a seguinte afirmação: "a astrologia é considerada uma reminiscência nao científica do passado histórico da ciência astronômica". Assim, desde que se tornou clara a distinção entre as duas, muitas pessoas com menor acesso aos campos um pouco mais elaborados do conhecimento humano ainda não são capazes de separá-las. Neste ponto entra o segundo motivo.

É notório que, ao contrário do que se deveria supor, o ser humano nem sempre preza pelo completo desenvolvimento intelectual de seus semelhantes, ou pelo seu acesso irrestrito à informação. Seja por motivos políiticos, culturais, religiosos ou econômicos, a informação é transmitida de acordo com os interesses de quem a transmite. A conseqüência disso é que a astrologia é normalmente muito mais divulgada que a Astronomia, basicamente por ter, em geral, algum retorno econômico imediato ou simplesmente por satisfazer à demanda de consumo de material esotérico. A Astronomia, e de um modo geral as ciências, infelizmente não conseguem tal acesso e interesse dos meios de comunicação.

Esta defasagem faz com que algumas pessoas não saibam sequer da existência da ciência astronômica ou então a associem à astrologia.

 


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